quarta-feira, 3 de junho de 2009

TOTALITARISMO E INTOLERÂNCIA por Carlos Alberto Di Franco


Dois episódios recentes, em Brasília e São Paulo, desnudam a visão totalitária e a intolerância ideológica que dominam estratégias de longo alcance na formação das novas gerações.Comecemos por Brasília. O governo quer que sejam incluídos nos livros didáticos a temática de famílias compostas por lésbicas, gays, travestis e transexuais. Ainda na área da educação, recomenda cursos de capacitação para evitar a homofobia nas escolas e pesquisas sobre comportamento de professores e alunos em relação ao tema. Essas são algumas das medidas que integram o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), documento firmado por representantes de 18 ministérios do governo Lula. “É um marco na busca da garantia dos direitos e cidadania”, afirmou o secretário de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, durante o lançamento do plano.
Vamos, caro leitor, a São Paulo. A Secretaria Estadual da Educação distribuiu a escolas um livro com conteúdo sexual e palavrões, para ser usado como material de apoio por alunos da 3ª série do ensino fundamental (faixa etária de 9 anos). O livro (Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol) é recheado com palavrões e termos chulos. São 11 histórias em quadrinhos, feitas por diferentes artistas, que abordam temas relacionados a futebol – algumas usam também a conotação sexual.
O governo de São Paulo afirmou que houve “falha”na escolha, pois o material é “inadequado para alunos desta idade”. Ótimo. Reconhecer o erro é importante. Mas, aparentemente, o governo entende que o conteúdo seria adequado para alunos de outra faixa etária. Lamentável! É assim que se pretende melhorar a qualidade de ensino?
São Paulo que foi capaz de produzir uma USP assiste hoje à demissão do dever de educar. A pedagogia do palavrão e a metodologia da obscenidade estão ocupando o lugar da educação de qualidade. Espero, sinceramente, que o episódio seja pontual e que o governador José Serra, homem de sólida formação acadêmica, e seu secretário da Educação, o ex-ministro Paulo Renato, tomem providências definitivas.
Na verdade, amigo leitor, uma onda de intolerância avança sobre a sociedade. Discriminados assumem a bandeira da discriminação. O tema da sexualidade passou a gerar novos dogmas e novos tabus. E os governos, num espasmo de totalitarismo, querem impor à sociedade um modo único de pensar, de ver e de sentir.
Uma coisa é o combate à discriminação, urgente e necessário. Outra, totalmente diferente, é o proselitismo de uma opção de vida. Não cabe ao governo, com manuais, cartilhas e material didático, formatar a cabeça dos brasileiros. Tal estratégia tem nome: totalitarismo. O governo deve impedir os abusos da homofobia, mas não pode impor um modelo de família que não bate com as raízes culturais do Brasil e sequer está em sintonia com o sentir da imensa maioria da população.
A intolerância atual é uma nova “ideologia”, ou seja, uma cosmovisão – um conjunto global de idéias fechado em si mesmo –, que pretende ser a “única verdade”, racional, a única digna de ser levada em consideração na cultura, na política, na legislação, na educação, etc. Tal como as políticas nascidas das ideologias totalitárias, a atual intolerância execra – sem dar audiência ao adversário nem manter respeito por ele – os pensamentos que divergem dos seus “dogmas”, e não hesita em mobilizar a “inquisição” de certos setores, para achincalhar – sem o menor respeito pelo diálogo – as ideias ou posições que se opõem ao seu dogmatismo.
Aborrece-me a intolerância dos “tolerantes”. Incomoda-me o dogmatismo das falanges autoritárias. Respeito a divergência e convivo com o contraditório. Sem problema. Mas não duvido que é na família, na família tradicional, mais do que em qualquer outro quadro de convivência, o “lugar” onde podem ser cultivados os valores, as virtudes e as competências que constituem o melhor fundamento da educação para a cidadania.

Carlos Alberto Di Franco é diretor do Master em Jornalismo, professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia e colaborador deste blog.
difranco@iics.org.br

terça-feira, 19 de maio de 2009

ESTRATEGISTA DO PERDÃO por Carlos Alberto Di Franco


A cobertura da imprensa da recente visita do papa à Terra Santa foi bastante razoável. Algumas matérias, ancoradas em informações de agências internacionais, deram, talvez, excessivo destaque aos destemperos isolados de alguns radicais e alimentaram polêmicas vazias que não se sustentam em pé. É preciso reconhecer, no entanto, que alguns equívocos cresceram à sombra do surpreendente despreparo do porta-voz do Vaticano.

“O papa nunca fez parte da Juventude Hitlerista”, afirmou monsenhor Federico Lombardi, acrescentando que Bento XVI foi convocado apenas para servir numa unidade antiaérea das tropas alemãs. Horas depois, voltou atrás na afirmação e divulgou um comunicado reconhecendo o que o papa, um homem reconhecidamente transparente, jamais negou: teve uma breve e compulsória participação na Juventude Hitlerista. Foi, como milhares de crianças alemãs, privado de sua liberdade e vitimado pelos abusos criminosos do governo de Hitler.

Comprova-se, mais uma vez, que os injustos ataques à imagem de Bento XVI não se originam apenas nas fileiras hostis ao Vaticano. São reforçados pela crescente ação do fogo amigo. E não estou pensando somente nas escorregadas do porta-voz. Os equívocos não se limitam à Sala de Imprensa. As puxadas de tapete, por sua magnitude e ousadia, nascem, estou certo, em ambientes curiais que deveriam primar pela lealdade ao papa.

Mas voltemos ao tema deste artigo. Durante toda a viagem, o papa repetiu duas mensagens: a de que cristãos, judeus e muçulmanos dividem as mesmas raízes e a importância da presença cristã no Oriente Médio. Ao visitar a Cidade Velha de Jerusalém, Bento XVI foi à Esplanada das Mesquitas (conhecida como Monte do Templo pelos judeus), terceiro lugar mais sagrado para o Islã, e entrou descalço no Domo da Rocha, de onde o Profeta Maomé teria subido aos céus. Em outro momento comovente, o papa depositou um bilhete entre as pedras do Muro das Lamentações, local sagrado para o Judaísmo. No bilhete, pediu ao “Deus de Abraão, Isaac e Jacó que leve sua paz à Terra Santa, ao Oriente Médio e a toda família humana.”

Mas Bento XVI sabe que a paz no Oriente Médio não depende de acordos meramente políticos, mas de algo muito mais profundo: a estratégia do perdão. Acima dos ódios milenares que dilaceram aqueles povos, o papa pediu a Deus que ajude os povos do Oriente Médio a derrubar os muros da hostilidade e da divisão.

A estratégia do perdão está no cerne da diplomacia papal. Ela deu um salto gigantesco no governo de seu antecessor. Como principal assessor de João Paulo II, o então cardeal Ratzinger teve papel decisivo na redação de um documento carregado de significado, a bula Incarnationis Mysterium, que instituiu o jubileu do ano 2000. Bento XVI, à semelhança de seu antecessor, aposta na força purificadora e libertadora da verdade. Movido pelo espírito de reconciliação, o papa pediu perdão pelos erros cometidos pelos fiéis e pelos representantes da Igreja Católica ao longo dos 2 mil anos da vida da instituição.

Esse gesto sem precedentes na História provocou interesse das outras religiões, mas foi recebido com reservas por alguns integrantes da própria Igreja Católica. Questionou-se a iniciativa do papa, porque se considerou que era unilateral, e se pediu um passo semelhante das outras igrejas. João Paulo II então, e Bento XVI agora, numa atitude de grandeza moral, não calcularam contrapartidas. O perdão genuíno, a reconciliação que tanta falta faz no Oriente Médio, é sempre uma abertura desarmada e generosa.

Reconciliação e unidade estiveram no centro dos objetivos papais. A viagem ao Oriente Médio, onde os filhos de Abraão, cristãos, judeus e muçulmanos, vivem num conflito permanente, não foi apenas a realização de um sonho do pontífice. Foi, na verdade, o corolário de uma vida dedicada à paz.

A realização do sonho de Bento XVI não será fácil, mas sua agenda da reconciliação proposta no coração de uma região corroída pelas divisões e pelo ódio, se bem acolhida, pode indicar que algo de novo e surpreendente está despontando no horizonte da terra onde nasceu o Príncipe da Paz.

Carlos Alberto Di Franco é diretor do Master em Jornalismo , professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco difranco@iics.org.br e colaborador deste blog.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O DEVER DA DENÚNCIA por Carlos Alberto Di Franco


O leitor é sempre o melhor termômetro para medir a temperatura da cidadania. Em meu último artigo tratei do cinismo antiético que domina amplos setores do Congresso Nacional. O episódio das passagens aéreas reuniu situação e oposição no mesmo balaio da amoralidade. A nota oficial do presidente da Câmara, Michel Temer, é de uma esquizofrenia flagrante. Reconhece malfeitorias, mentiras e abusos. O corolário do silogismo, no entanto, não é a punição. Tudo acabou em novas regras e numa formidável anistia. Se todos, ou quase todos, estão envolvidos, ninguém é culpado. Viva a impunidade! Recebi 84 e-mails de leitores de várias cidades brasileiras. Uma boa amostragem de opinião pública. Um denominador comum esteve presente em todas as mensagens: indignação e pessimismo.
Muitos brasileiros, equivocadamente, começam a descrer da democracia. Paira no ar uma perigosa sensação: o Congresso Nacional não serve para nada. Vislumbra-se uma relação de causa e efeito entre corrupção e democracia. Alguns, sem dúvida desmemoriados, têm saudade de um passado ditatorial de triste memória. Reféns do desalento, sinalizam um risco que não deve ser subestimado: a utopia autoritária.
O Brasil, apesar dos pesares, tem instituições razoavelmente sólidas, embora parcela significativa da sociedade, como já disse, comece a questionar a validade de um dos pilares da democracia: o Congresso Nacional. O descrédito generalizado, sobretudo dos parlamentares, captado em inúmeras pesquisas de opinião, é preocupante. Queixa-se também a sociedade da impunidade radical. O fato de a Policia Federal prender e o Judiciário soltar, independentemente de eventuais razões processuais que possam justificar o procedimento, conspira contra a credibilidade da Justiça. Que fazer? Eis a pergunta que está no fundo do gigantesco descontentamento nacional.

Nós, jornalistas, sem qualquer engajamento ideológico, mas cumprindo rigorosamente nosso dever de denúncia, podemos contribuir poderosamente para a renovação ética do País. O combate à corrupção deve ser uma bandeira permanente. Para isso, em primeiro lugar, é preciso fugir do jornalismo declaratório e investir pesadamente na metodologia da dúvida. Interrogar e duvidar é um dever profissional elementar, sobretudo quando se cobrem assuntos de interesse público.
Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. A busca da isenção, no entanto, não significa a equivocada opção pela neutralidade. Os leitores não querem um jornalismo insosso e incolor. Querem uma mídia comprometida com a verdade. Tal compromisso, como é lógico, reclama, muitas vezes, uma informação que desemboca na denúncia consistente.
Na falta do bom ceticismo (jornalistas não podem ser ingênuos), o predomínio das aspas ocupa o lugar da informação. Um exemplo é suficiente: o agressivo marketing do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Inúmeras foram as manchetes reproduzindo declarações do presidente da República e da Chefe da Casa Civil a respeito do novo milagre brasileiro. Poucas, muito poucas, mostraram a realidade dos fatos: o PAC é uma bela parola! E a nossa missão é (ou deveria ser) rasgar o declaratório e mostrar a verdade. Declaração não é ponto de chegada. É ponto de partida. É pauta. Precisamos ver e confrontar a realidade com as promessas. Sem isso, o jornalismo deixa de ser socialmente relevante.
Complementa-se o dever da denúncia com o que eu chamaria de jornalismo de buldogues. Precisamos, todos, ser a memória da cidadania. Sugiro, mais uma vez, uma simples, mas eficiente terapia de combate à imoralidade: o placar da corrupção. Mensalmente, por exemplo, a imprensa exporia um quadro didático dos principais escândalos: o que aconteceu com os protagonistas da delinquência, as ações concretas ou as omissões dos Poderes Executivos, Legislativo e Judiciário. Seria bom, em período eleitoral, elencar os nomes dos congressistas que participaram ativamente da farra das passagens aéreas e de outros desmandos. Trata-se de serviço público de primeira grandeza.
É dever ético da imprensa promover uma ampla conscientização popular da relevância que os cargos públicos têm e da importância de que pessoas absolutamente idôneas os ocupem. É preciso mostrar eventuais descompassos entre o discurso e a realidade. Os programas eleitorais vendem uma bela embalagem, mas, de fato, são paupérrimos na discussão das idéias. Nós jornalistas devemos ser o contraponto a essa tendência. Cabe-nos a missão desnudar o que o marketing esconde.
“A imprensa”, dizia Rui Barbosa, “é a vista da Nação. Por ela é que a Nação acompanha o que lhe passa ao perto e ao longe, enxerga o que lhe malfazem, devassa o que lhe ocultam e tramam, colhe o que lhe sonegam, ou roubam.” (...) “O poder não é um antro: é um tablado. A autoridade não é uma capa, mas um farol. A política não é uma maçonaria, e sim uma liça. Queiram, ou não queiram, os que se consagraram à vida pública, até à sua vida particular deram paredes de vidro. Agrade, ou não agrade, as constituições que abraçaram o governo da Nação pela Nação têm por suprema esta norma: para a Nação não há segredos; na sua administração não se toleram escaninhos; no procedimento dos seus servidores não cabe mistério; e toda encoberta, sonegação ou reserva, em matéria de seus interesses, importa, nos homens públicos, traição ou deslealdade aos mais altos deveres do funcionário para com o cargo, do cidadão para com o país.”
Pois bem, caro leitor: um abismo separa os ideais de Ruy Barbosa dos usos e costumes da Ilha da Fantasia. Mudar é preciso.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

JORNAIS, IGREJA E ESTADO por Carlos Alberto Di Franco


O Brasil é um país de expressiva maioria católica. A informação de religião, portanto, merece atenção especial. A quantidade da informação religiosa, em geral, é bastante razoável. Alguns riscos, no entanto, ameaçam a qualidade da cobertura jornalística. Sobressai, entre eles, a falta de especialização, o razoável desconhecimento técnico e, reconheçamos, certa dose de preconceito. Acresce a tudo isso o amadorismo, o despreparo e a falta de transparência da comunicação eclesiástica. Recentes episódios, lamentáveis, evidenciam a urgente necessidade de profissionalização da comunicação institucional da Igreja.
A Igreja Católica, instituição de grande presença e influência na agenda pública brasileira, é sempre notícia. Trabalhar a informação religiosa com rigor e isenção é um desafio. Muitas vezes ganhamos. Outras, perdemos. Em sua primeira viagem à África, o papa Bento XVI reafirmou a oposição da Igreja ao uso dos preservativos. Os jornais afirmaram que Bento XVI teria dito que "a camisinha agrava a aids". Errado. O que o papa disse e tem repetido é que a verdadeira luta contra a aids passa pela "humanização da sexualidade". A mera distribuição de preservativos é, segundo a Igreja, uma estratégia equivocada. A Igreja prega abertamente que a fidelidade dentro do casamento heterossexual, a castidade e a abstinência são a melhor maneira de combater a aids. Tal postura não decorre de uma histeria conservadora. Resulta, na verdade, de conceitos antropológicos profundos, embora, reconheço, politicamente incorretos. Podemos concordar ou discordar, podemos achar que se trata de uma exigência excessiva, mas não podemos desqualificar por baixo.
A mídia dá foco absoluto ao que a Igreja faz ou fará. Gente de todas as denominações cristãs (e até mesmo sem qualquer profissão religiosa) dá opiniões sobre os caminhos que a Igreja Católica deve adotar. Se a Igreja estivesse de fato fora do tempo, anacrônica e ultrapassada, poucos se dariam a esse trabalho. A eleição de Bento XVI, por exemplo, foi um case jornalístico interessante. A cobertura, lá fora e aqui, foi quantitativamente exuberante. Do ponto de vista da qualidade, no entanto, ficou bastante aquém do que poderíamos ter feito. Ficaram, alguns jornais, reféns de declarações de reduzidos e conhecidos desafetos do então cardeal Ratzinger. Criou-se, assim, uma falsa imagem do novo papa. Bento XVI seria um eclesiástico duro, quase intratável. Quem o conhece, e nós o vimos de perto aqui no Brasil, sabe que se trata de um brilhante intelectual, mas também de um homem simples, cordial, com uma ponta de timidez que desarma e cativa.
Agora, como papa, por óbvio, defende o núcleo fundamental da fé católica. Sem essa defesa, muitas vezes na contramão dos modismos de ocasião, a Igreja perderia sua identidade. Se os papas procurassem o "sucesso" - que parece ser a medida suprema da realização para os que tudo medem pelos ibopes -, bastaria que, esquecendo-se da verdade que custodiam, se tivessem bandeado pouco a pouco, como fazem certos "teólogos", para os "novos valores" (em linguagem cristã, contravalores) que cada vez mais tentam dominar o mundo.
É patente que, na hora atual, vivemos uma encruzilhada histórica em que são incontáveis os que parecem andar pela vida sem norte nem rumo, entre as areias movediças do niilismo. O papa teve sempre plena consciência dessa situação e, em vez de sentir a tentação daqueles teólogos que aspiram aos afagos do mundo para dele receberem diploma de "modernos" e "progressistas", ele dá, diariamente, a vida por uma verdade que pode resgatar este mundo, sem se importar com que o chamem de retrógrado, conservador ou desatualizado. Ou será que se espera um papa que deixe de ser cristão para ser mais bem aceito?
Pretende-se que, perante este deslizamento do mundo para baixo, com a glorificação de todo nonsense moral, o papa exerça a sua missão acompanhando a descida, cedendo a tudo e se limitando a um vago programa socioecológico, a belos discursos de paz e amor e a um ecumenismo em que todos os equívocos se podem abraçar e congraçar, porque ninguém acredita mais em coisa alguma, a não ser em viver bem? Mas a coerência doutrinal da Igreja, por vezes conflitante com certas posturas comportamentais, tem sido um fator de defesa e elevação ética das sociedades.
O crescimento da Igreja, como salientou Bento XVI, dá-se "muito mais por atração", nunca por imposição. Entre uma pessoa de fé e um fanático existe uma fronteira nítida: o apreço pela liberdade. O sectário assume a sua convicção com intolerância. O fanático impõe. A pessoa de fé, ao contrário, assenta serenamente em seus valores. Por isso, a sua convicção não a move a impor, mas a estimula a propor, a expor à livre aceitação dos outros as ideias que acredita dignas de serem compartilhadas.
A correta informação sobre a Igreja passa pelo reconhecimento de seu papel na sociedade e pelo seu direito de transitar no espaço público. Caso contrário, cairíamos no laicismo antidemocrático. O Estado é laico, mas não é ateu. O laicismo militante pretende ser a "única verdade"racional, a única digna de ser levada em consideração na cultura, na política, na legislação, no ensino, etc. Por outras palavras, o laicismo é um dogmatismo secular, algo tão pernicioso quanto o clericalismo do passado.
Tentar expulsar a Igreja do debate em defesa da vida, por exemplo, é arbítrio laicista. A independência é um bem para a Igreja e para o Estado. Mas não significa ruptura e, muito menos, virar as costas para o Brasil real, uma nação de raízes culturais cristãs. Informar com isenção é um desafio. E é aí que mora o fascínio da nossa profissão.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O Divino Infante que nos visitou


“Eis que vos anuncio uma grande alegria que será partilhada por todo o povo, pois nasceu-vos hoje o Salvador”. Neste dia em que celebramos o natal do Senhor, fazemos memória do tempo em que fomos visitados por Deus. Uma visita distinta e, sem duvidas, especial. Jesus, o Deus-Filho, a segunda pessoa da Santíssima Trindade veio até nós assumindo toda a nossa humanidade. No antigo testamento, o profeta Isaías faz o prenúncio do Salvador com as seguintes palavras: “Nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor; sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e discernimento, espírito de conselho e fortaleza, espírito de ciência e temor de Deus; no temor do Senhor encontra ele seu prazer”(Is 11,1-3a).
São Leão Magno, papa muito destacado por conta de seus belíssimos sermões nos lembra de nossa distinção de cristãos. Devemos tomar consciência de nossa dignidade, pois hoje nasceu a vida. Vida que dissipa o temor da morte, que nos enche de alegria com a viva esperança da eternidade. É Jesus que vem até nós para libertar a todos. Exulte o justo, porque se aproxima da vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida.
Tudo o que é narrado pela sagrada escritura sobre o nascimento de Jesus Cristo vem como confirmação de sua missão. Ele se fez pobre com os pobres. Viveu a nossa vida e em tudo foi experimentado, exceto no pecado. Porém, fixemos nosso olhar para aquele dia em que o amor de Deus se derramou sobre nós. Numa noite fria, depois da longa jornada para o recenseamento, José estava aflito, pois sua esposa, Maria, sente as contrações do parto. Na cidade de Belém, as portas se fecham, pois não há lugar para eles. A ultima opção se torna realidade. No estábulo, junto aos animais, nasce o Salvador. Santo Afonso Maria de Ligório diz não saber explicar como as palhas da manjedoura e todo o presépio não se incendiaram com o tamanho amor inflamado por Deus naquele instante divino e sublime.
Deus realiza o que por nossas puras forças era impossível. Jesus se reveste de nossa carne e nasce Divino Infante: Deus se faz homem! Alegre verdade de nossa existência! É um mistério de fé que cremos e professamos. É este grande mistério que os coros cantam na noite de Natal: Ó grande mistério, e admirável sacramento, os animais verem o Senhor nascido, deitado no presépio. Bem-Aventurada a Virgem cujas entranhas mereceram trazer o Senhor Jesus Cristo. Aleluia. O advento, esse tempo de quatro semanas que antecederam o santo natal de Jesus Cristo, criou em nós esse sentimento de expectativa. Esperamos com felicidade aquele que a de vir. O canto de Glória e o Aleluia vêm com grande força a nossa garganta que proclama com vigor o nascimento do Filho de Deus. Exclamamos com a feliz surpresa dos pastores, com a reverência dos magos e a adoração da corte celeste. Ele já havia sido anunciado como Emanuel, “Deus conosco” (Is 7,14), “Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz” (Is 9,5).
É nosso dever receber hoje esse menino que nasce no natal. Tarefa esta destinada a toda a humanidade fiel à Cristo e a sua proposta do Reino de paz e amor. A nós é incumbida a tarefa de zelar para que o Divino Infante, o Menino Jesus, nasça na dignidade da pureza de nosso coração. E ao vê-lo reclinado na manjedoura de nosso coração, entre as palhas de nossa limitação humana ajoelhemo-nos para adorar a encarnação de Jesus, o Cristo. Dexemo-nos penetrar por essa atmosfera de graças e bênçãos oriundas do Divino Infante. Não nos esqueçamos, porém, do exemplo da Virgem Maria. Segundo São Bernardo “convinha a um Deus nascer de uma Virgem, e uma Virgem só podia conceber um Deus”.
Por amor Ele quer nascer em nosso coração. Por amor tão somente. É assim o nosso Deus. Tudo tão simples e tão completo. Juntemos hoje, a nossa voz a voz dos anjos todos para cantarmos jubilosos: Glória a Deus nas alturas; e anunciam: Paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14). A Você e a sua família eu desejo um Feliz e Santo Natal! Veníte adorémus Dóminum – Oh! vinde adoremos o Salvador.

Welinton Silva é seminarista redentorista, licenciado em filosofia pela Universidade Católica de Goiás, Goiânia.
welintonredentorista@hotmail.com

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A encarnação do Filho de Deus


Já se aproxima a celebração do natal. Isso ao menos se evidencia no movimento econômico de nossas cidades, apesar de toda a crise financeira pela qual o mundo está passando. Nessas últimas semanas, os shoppings e o comércio em geral estão bastante movimentados por ocasião das festas de fim de ano. Afinal isso acontece todos os anos. E todo o ano acontece a mesma coisa. Mas será se nós temos conhecimento daquilo que celebramos todos os anos com tanta avidez?!
Santo Afonso Maria de Ligório, no seu livro Encarnação, Nascimento e infância de Jesus nos diz que “muitos cristãos costumam preparar com bastante antecedência em suas casas um presépio para representar o nascimento de Jesus Cristo. Mas há poucos que pensam em preparar seus corações, a fim que o Menino Jesus possa neles nascer e repousar.”. E é sobre o mistério da encarnação de Jesus Cristo que hoje quero refletir com o amigo leitor.
Sem dúvida alguma, o mistério da encarnação de Jesus é algo muito importante para todos os cristãos e revela a maior prova de amor de Deus a humanidade. Por amor a nós homens, o nosso Criador quis se fazer homem como nós, abstendo-se somente do pecado. Assim São Paulo escreveu aos filipenses: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,6-8).
Não podemos apreender toda a imensidão do mistério da encarnação de Jesus Cristo, porque somos incapazes de compreender a profundidade do Seu amor por nós. Para nos dar testemunho desse amor pleno, Jesus, o filho de Deus-Pai, foi até o extremo. Fez-se homem, colocando toda a sua divindade na nossa humanidade, aceitando viver dentro dos limites da criatura. Assumiu a nossa fraqueza, aceitou os nossos limites, chorou as nossas lagrimas, sofreu as nossas dores e foi assassinado com uma das piores condenações de seu tempo. Ele tudo fez para apresentar-nos o seu louco amor por nós. Mesmo sendo Deus “passou pelas mesmas provações que nós, com exceção do pecado” (Hb 4,15b).
Após Jesus ter-se feito homem como nós, não podemos mais duvidar do imenso amor de Deus pela humanidade. Depois de tudo nos conceder com a criação e a vida, Ele nos fez a sua imagem e semelhança no amor. Ele nos deu a si mesmo, como prova extrema de seu amor sem ressalvas ou exigências.
O nome Jesus, quer dizer Deus-Conosco, Emanuel. É o Filho de Deus que desceu do céu e se encarnou no seio puro e virginal de Maria para libertar-nos da morte eterna do pecado. Encarnando-se, Jesus fez a nós uma ação incomparável: “porquanto os filhos participam da mesma natureza, da mesma carne e do sangue, também ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio” (Hb 2,14).
Pela encarnação de Jesus, somos filhos adotivos de Deus, irmãos de Cristo e herdeiros do céu. “Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma Lei, a fim de remir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a sua adoção” (Gl 4,4). Essa é a razão da ação de graças com que o cristão celebra o natal. Toda nossa forma de gratidão é levada àquela gruta de Belém, como a oferta daqueles magos que “ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2,11c).
Voltemos ao ponto de onde iniciei nossa reflexão. Nas palavras de Santo Afonso de Ligório: “sejamos nós desse pequeno número (dos que preparam o seu coração para o nascimento de Jesus): procuremos dispor-nos dignamente para arder desse fogo divino, que torna as almas contentes neste mundo e felizes no céu”. Que Maria receba Jesus em nosso coração hoje, como O recebeu da primeira vez.

Welinton Silva é seminarista redentorista, licenciado em filosofia pela Universidade Católica de Goiás, Goiânia.
welintonredentorista@hotmail.com

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Maria, a Imaculada Conceição


Quando falamos da Imaculada Conceição de Maria, fazemos referência a um privilégio que ela recebeu de Deus: ser preservada do pecado original desde a sua concepção. A razão dessa graça dada por Deus a Maria de Nazaré, está na sua vocação por excelência: ser a Mãe de Jesus Cristo, o Filho de Deus. E é pelos méritos de Cristo, que Maria foi preservada imune de toda mancha de pecado original (Bv. Duns Scoto).
Na passagem de Lucas, capítulo 1, versículo 28, o evangelista confirma a predileção de Deus por Maria: “Entrando, o anjo disse-lhe:’Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo’”. Não há na Bíblia uma afirmação explicita que Maria tenha sido concebida sem o pecado original. Trata-se de uma doutrina que sempre esteve implícita na Fé da Igreja.
Já nos primeiros séculos das comunidades cristãs, temos escritos dos padres da igreja sobre a Imaculada Conceição de Maria. Santo Efrém chegou a afirmar que só Cristo e Maria são limpos e puros de toda e qualquer mancha. No início, quando se formavam as verdades de fé, não foi fácil explicar e tornar aceita essa verdade de fé. Contudo, a reflexão contundente dos padres da igreja e pensadores da época, possibilitou que pudéssemos chegar a essa conclusão.
O pensador franciscano Duns Scoto (+1308) buscou dar uma resposta norteadora para a teologia sobre a Imaculada Conceição de Maria: Maria foi preservada do pecado original em previsão dos méritos de Cristo. Ou seja, se não fosse por essa graça de Deus, ela também teria nascido com a mancha do pecado original. É interessante a conclusão de sua tese: Convinha que Deus fizesse a exceção; podia fazê-la; portanto, a fez!. Isto é, Deus queria, podia, então fez.
A devoção na Imaculada Conceição se fortaleceu a partir do século XV, com o Concílio de Trento. Já em 1476, se celebrava uma festa no calendário litúrgico em sua honra. No ano de 1854, o papa Pio IX (1846-1878) promulgou a definição dogmática da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria (Bula Ineffabilis Deus de 08.12.1854): “Maria foi preservada imune de toda mancha do pecado original”.
Na definição dogmática, Pio IX diz: “Em honra da santa e indivisa Trindade, para decoro e ornamento da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da fé católica, e para incremento da religião cristã, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e com a Nossa, declaramos, pronunciamos e definimos: A doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante da sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha de pecado original, essa doutrina foi revelada por Deus, e por isso deve ser crida firme e inviolavelmente por todos os fiéis.”.
Maria também não experimentou a concupiscência, isto é, a inclinação ao pecado, que nasce do pecado e ao pecado conduz. Ela é uma nova criatura. Isenta do pecado, têm condições de notar as escravidões às quais estão expostas todas as pessoas que escolhem esse caminho que não conduz a Deus.
O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira ressalta que “a graça santificante — concedida à Santíssima Virgem Imaculada numa abundância inaudita e insondável — foi correspondida perfeitamente por Ela a cada momento. Assim, se compreende o que seria a ordem interna, a pureza, a virtude e a santidade de Nossa Senhora”.
Maria é totalmente de Deus. É um modelo a quem devemos imitar. É fonte de santidade para toda a Igreja. Também nós, quando crescemos em graus de santidade, santificamos a Igreja. Maria nos deu Cristo, o salvador, e nós precisamos de Cristo para que se efetive nossa salvação. Tanto em Maria, quanto em nós a mesma graça de Deus atua. Só depende de nossa colaboração na instauração do Reino de Deus. Vivamos, a exemplo de Maria, nossa condição de criaturas humanas em sintonia com a vontade de Deus.

Welinton Silva é seminarista redentorista, licenciado em filosofia pela Universidade Católica de Goiás, Goiânia.
welintonredentorista@hotmail.com