quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O Divino Infante que nos visitou


“Eis que vos anuncio uma grande alegria que será partilhada por todo o povo, pois nasceu-vos hoje o Salvador”. Neste dia em que celebramos o natal do Senhor, fazemos memória do tempo em que fomos visitados por Deus. Uma visita distinta e, sem duvidas, especial. Jesus, o Deus-Filho, a segunda pessoa da Santíssima Trindade veio até nós assumindo toda a nossa humanidade. No antigo testamento, o profeta Isaías faz o prenúncio do Salvador com as seguintes palavras: “Nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor; sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e discernimento, espírito de conselho e fortaleza, espírito de ciência e temor de Deus; no temor do Senhor encontra ele seu prazer”(Is 11,1-3a).
São Leão Magno, papa muito destacado por conta de seus belíssimos sermões nos lembra de nossa distinção de cristãos. Devemos tomar consciência de nossa dignidade, pois hoje nasceu a vida. Vida que dissipa o temor da morte, que nos enche de alegria com a viva esperança da eternidade. É Jesus que vem até nós para libertar a todos. Exulte o justo, porque se aproxima da vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida.
Tudo o que é narrado pela sagrada escritura sobre o nascimento de Jesus Cristo vem como confirmação de sua missão. Ele se fez pobre com os pobres. Viveu a nossa vida e em tudo foi experimentado, exceto no pecado. Porém, fixemos nosso olhar para aquele dia em que o amor de Deus se derramou sobre nós. Numa noite fria, depois da longa jornada para o recenseamento, José estava aflito, pois sua esposa, Maria, sente as contrações do parto. Na cidade de Belém, as portas se fecham, pois não há lugar para eles. A ultima opção se torna realidade. No estábulo, junto aos animais, nasce o Salvador. Santo Afonso Maria de Ligório diz não saber explicar como as palhas da manjedoura e todo o presépio não se incendiaram com o tamanho amor inflamado por Deus naquele instante divino e sublime.
Deus realiza o que por nossas puras forças era impossível. Jesus se reveste de nossa carne e nasce Divino Infante: Deus se faz homem! Alegre verdade de nossa existência! É um mistério de fé que cremos e professamos. É este grande mistério que os coros cantam na noite de Natal: Ó grande mistério, e admirável sacramento, os animais verem o Senhor nascido, deitado no presépio. Bem-Aventurada a Virgem cujas entranhas mereceram trazer o Senhor Jesus Cristo. Aleluia. O advento, esse tempo de quatro semanas que antecederam o santo natal de Jesus Cristo, criou em nós esse sentimento de expectativa. Esperamos com felicidade aquele que a de vir. O canto de Glória e o Aleluia vêm com grande força a nossa garganta que proclama com vigor o nascimento do Filho de Deus. Exclamamos com a feliz surpresa dos pastores, com a reverência dos magos e a adoração da corte celeste. Ele já havia sido anunciado como Emanuel, “Deus conosco” (Is 7,14), “Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz” (Is 9,5).
É nosso dever receber hoje esse menino que nasce no natal. Tarefa esta destinada a toda a humanidade fiel à Cristo e a sua proposta do Reino de paz e amor. A nós é incumbida a tarefa de zelar para que o Divino Infante, o Menino Jesus, nasça na dignidade da pureza de nosso coração. E ao vê-lo reclinado na manjedoura de nosso coração, entre as palhas de nossa limitação humana ajoelhemo-nos para adorar a encarnação de Jesus, o Cristo. Dexemo-nos penetrar por essa atmosfera de graças e bênçãos oriundas do Divino Infante. Não nos esqueçamos, porém, do exemplo da Virgem Maria. Segundo São Bernardo “convinha a um Deus nascer de uma Virgem, e uma Virgem só podia conceber um Deus”.
Por amor Ele quer nascer em nosso coração. Por amor tão somente. É assim o nosso Deus. Tudo tão simples e tão completo. Juntemos hoje, a nossa voz a voz dos anjos todos para cantarmos jubilosos: Glória a Deus nas alturas; e anunciam: Paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14). A Você e a sua família eu desejo um Feliz e Santo Natal! Veníte adorémus Dóminum – Oh! vinde adoremos o Salvador.

Welinton Silva é seminarista redentorista, licenciado em filosofia pela Universidade Católica de Goiás, Goiânia.
welintonredentorista@hotmail.com

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A encarnação do Filho de Deus


Já se aproxima a celebração do natal. Isso ao menos se evidencia no movimento econômico de nossas cidades, apesar de toda a crise financeira pela qual o mundo está passando. Nessas últimas semanas, os shoppings e o comércio em geral estão bastante movimentados por ocasião das festas de fim de ano. Afinal isso acontece todos os anos. E todo o ano acontece a mesma coisa. Mas será se nós temos conhecimento daquilo que celebramos todos os anos com tanta avidez?!
Santo Afonso Maria de Ligório, no seu livro Encarnação, Nascimento e infância de Jesus nos diz que “muitos cristãos costumam preparar com bastante antecedência em suas casas um presépio para representar o nascimento de Jesus Cristo. Mas há poucos que pensam em preparar seus corações, a fim que o Menino Jesus possa neles nascer e repousar.”. E é sobre o mistério da encarnação de Jesus Cristo que hoje quero refletir com o amigo leitor.
Sem dúvida alguma, o mistério da encarnação de Jesus é algo muito importante para todos os cristãos e revela a maior prova de amor de Deus a humanidade. Por amor a nós homens, o nosso Criador quis se fazer homem como nós, abstendo-se somente do pecado. Assim São Paulo escreveu aos filipenses: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,6-8).
Não podemos apreender toda a imensidão do mistério da encarnação de Jesus Cristo, porque somos incapazes de compreender a profundidade do Seu amor por nós. Para nos dar testemunho desse amor pleno, Jesus, o filho de Deus-Pai, foi até o extremo. Fez-se homem, colocando toda a sua divindade na nossa humanidade, aceitando viver dentro dos limites da criatura. Assumiu a nossa fraqueza, aceitou os nossos limites, chorou as nossas lagrimas, sofreu as nossas dores e foi assassinado com uma das piores condenações de seu tempo. Ele tudo fez para apresentar-nos o seu louco amor por nós. Mesmo sendo Deus “passou pelas mesmas provações que nós, com exceção do pecado” (Hb 4,15b).
Após Jesus ter-se feito homem como nós, não podemos mais duvidar do imenso amor de Deus pela humanidade. Depois de tudo nos conceder com a criação e a vida, Ele nos fez a sua imagem e semelhança no amor. Ele nos deu a si mesmo, como prova extrema de seu amor sem ressalvas ou exigências.
O nome Jesus, quer dizer Deus-Conosco, Emanuel. É o Filho de Deus que desceu do céu e se encarnou no seio puro e virginal de Maria para libertar-nos da morte eterna do pecado. Encarnando-se, Jesus fez a nós uma ação incomparável: “porquanto os filhos participam da mesma natureza, da mesma carne e do sangue, também ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio” (Hb 2,14).
Pela encarnação de Jesus, somos filhos adotivos de Deus, irmãos de Cristo e herdeiros do céu. “Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma Lei, a fim de remir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a sua adoção” (Gl 4,4). Essa é a razão da ação de graças com que o cristão celebra o natal. Toda nossa forma de gratidão é levada àquela gruta de Belém, como a oferta daqueles magos que “ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2,11c).
Voltemos ao ponto de onde iniciei nossa reflexão. Nas palavras de Santo Afonso de Ligório: “sejamos nós desse pequeno número (dos que preparam o seu coração para o nascimento de Jesus): procuremos dispor-nos dignamente para arder desse fogo divino, que torna as almas contentes neste mundo e felizes no céu”. Que Maria receba Jesus em nosso coração hoje, como O recebeu da primeira vez.

Welinton Silva é seminarista redentorista, licenciado em filosofia pela Universidade Católica de Goiás, Goiânia.
welintonredentorista@hotmail.com

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Maria, a Imaculada Conceição


Quando falamos da Imaculada Conceição de Maria, fazemos referência a um privilégio que ela recebeu de Deus: ser preservada do pecado original desde a sua concepção. A razão dessa graça dada por Deus a Maria de Nazaré, está na sua vocação por excelência: ser a Mãe de Jesus Cristo, o Filho de Deus. E é pelos méritos de Cristo, que Maria foi preservada imune de toda mancha de pecado original (Bv. Duns Scoto).
Na passagem de Lucas, capítulo 1, versículo 28, o evangelista confirma a predileção de Deus por Maria: “Entrando, o anjo disse-lhe:’Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo’”. Não há na Bíblia uma afirmação explicita que Maria tenha sido concebida sem o pecado original. Trata-se de uma doutrina que sempre esteve implícita na Fé da Igreja.
Já nos primeiros séculos das comunidades cristãs, temos escritos dos padres da igreja sobre a Imaculada Conceição de Maria. Santo Efrém chegou a afirmar que só Cristo e Maria são limpos e puros de toda e qualquer mancha. No início, quando se formavam as verdades de fé, não foi fácil explicar e tornar aceita essa verdade de fé. Contudo, a reflexão contundente dos padres da igreja e pensadores da época, possibilitou que pudéssemos chegar a essa conclusão.
O pensador franciscano Duns Scoto (+1308) buscou dar uma resposta norteadora para a teologia sobre a Imaculada Conceição de Maria: Maria foi preservada do pecado original em previsão dos méritos de Cristo. Ou seja, se não fosse por essa graça de Deus, ela também teria nascido com a mancha do pecado original. É interessante a conclusão de sua tese: Convinha que Deus fizesse a exceção; podia fazê-la; portanto, a fez!. Isto é, Deus queria, podia, então fez.
A devoção na Imaculada Conceição se fortaleceu a partir do século XV, com o Concílio de Trento. Já em 1476, se celebrava uma festa no calendário litúrgico em sua honra. No ano de 1854, o papa Pio IX (1846-1878) promulgou a definição dogmática da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria (Bula Ineffabilis Deus de 08.12.1854): “Maria foi preservada imune de toda mancha do pecado original”.
Na definição dogmática, Pio IX diz: “Em honra da santa e indivisa Trindade, para decoro e ornamento da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da fé católica, e para incremento da religião cristã, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e com a Nossa, declaramos, pronunciamos e definimos: A doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante da sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha de pecado original, essa doutrina foi revelada por Deus, e por isso deve ser crida firme e inviolavelmente por todos os fiéis.”.
Maria também não experimentou a concupiscência, isto é, a inclinação ao pecado, que nasce do pecado e ao pecado conduz. Ela é uma nova criatura. Isenta do pecado, têm condições de notar as escravidões às quais estão expostas todas as pessoas que escolhem esse caminho que não conduz a Deus.
O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira ressalta que “a graça santificante — concedida à Santíssima Virgem Imaculada numa abundância inaudita e insondável — foi correspondida perfeitamente por Ela a cada momento. Assim, se compreende o que seria a ordem interna, a pureza, a virtude e a santidade de Nossa Senhora”.
Maria é totalmente de Deus. É um modelo a quem devemos imitar. É fonte de santidade para toda a Igreja. Também nós, quando crescemos em graus de santidade, santificamos a Igreja. Maria nos deu Cristo, o salvador, e nós precisamos de Cristo para que se efetive nossa salvação. Tanto em Maria, quanto em nós a mesma graça de Deus atua. Só depende de nossa colaboração na instauração do Reino de Deus. Vivamos, a exemplo de Maria, nossa condição de criaturas humanas em sintonia com a vontade de Deus.

Welinton Silva é seminarista redentorista, licenciado em filosofia pela Universidade Católica de Goiás, Goiânia.
welintonredentorista@hotmail.com

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A prática da caridade cristã


Hoje, quero refletir com o leitor sobre a prática da caridade. A Caridade é uma das três virtudes teologais, que a Igreja Católica ensina como exercício agradável a Deus. Correspondem às três virtudes: a fé, a esperança e caridade. Paulo, apóstolo, em carta a comunidade de Corinto, coroa seu discurso no capitulo 13, versiculo 13, com a máxima cristã: "Portanto, agora existem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade. Porém a maior delas é a caridade". Caridade aqui se equivale ao amor. O verdadeiro e genuíno amor cristão.
Essa virtude divina foi implantada em nosso ser desde toda criação, pelo amor primeiro de Deus Pai criador. Foi também confirmada em nossa alma através do sacramento do santo Batismo, juntamente com a fé e a esperança. É a virtude pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Sabemos que as demais virtudes nos conduzem a Deus. A caridade, porém, nos une ao próprio Deus, e onde houver caridade, aí estarão também as demais virtudes. O saudoso papa João Paulo II, afirmou em uma de suas alocuções de audiência geral que, “a fé, a esperança e a caridade são como três estrelas, que se acendem no céu da nossa vida espiritual para nos guiarem rumo a Deus”.
Santo Agostinho já dizia, “Ama a Deus e faze o que quiseres”. É evidente que, se amarmos de verdade a Deus, nos será grato fazer somente o que for do seu agrado. E é ai que quero fazer algumas observações sobre a tragédia em Santa Catarina. Uma tragédia que com certeza deixou a todos os brasileiros um sentimento de compaixão e solidariedade. Os números nos assustam. Já são mais de 118 mortos pelo dilúvio, que desabrigou quase 80.000 e impactou 1,5 milhão de pessoas em Santa Catarina, região sul do Brasil.
A mobilização da sociedade em geral é notória. De todas as regiões partem caminhões com toneladas de alimentos em direção ao vale do Itajaí, e cidades adjacentes, num exercício da verdadeira caridade cristã: a solidariedade. O ser solidário é explicitado em muitas situações não apresentadas pela mídia em geral e infelizmente, explorado demasiadamente em situações como essas. A dor de tamanha situação só poderá ser descrita por aqueles, que a viveram em sua intensidade, como os catarinenses atingidos pela tempestade e suas conseqüências.
Diversas dioceses e arquidioceses pelo Brasil estão empenhadas em ajudar, em nome da Igreja, ao povo mais necessitado de ajuda no estado de Santa Catarina. Notáveis são as iniciativas em andamento, promovidas pela Arquidiocese de Florianópolis, pelas Dioceses de Joinville, de Blumenau e pelas Entidades-membro de Cáritas no Estado. Doações de alimentos e roupas estão sendo feitas diretamente nas secretarias das Paróquias destas Igrejas particulares, que também estão acolhendo os desabrigados em seus salões comunitários, centros catequéticos e casas religiosas, numa atitude de amenização e solidariedade para com o próximo, que perdeu tudo ou quase tudo. A Igreja se inspira na caridade ensinada por Jesus: Tudo o que vocês fizerem ao menor dos meus irmãos é a mim que vocês fazem.
A presença solidária da Igreja e a caridade do Santo Padre o Papa, é uma das primeiras a chegar a esses locais, onde a comunidade está desassistida do verdadeiro e necessário auxílio do poder público. É na comunidade-igreja que a solidariedade se revela por primeiro. É lá, onde todos vivem como irmãos, filhos do mesmo Pai. Aí a caridade realiza milagres. A Sagrada Escritura nos apresenta o sugestivo dito de Jesus em Mateus 14,13-21: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. O milagre da partilha cristã está ao alcance de todos que crêem no Cristo.
Usando as palavras do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, "a caridade é a virtude teologal, pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos por amor de Deus. Jesus faz dela o mandamento novo, a plenitude da lei”. (CIC, n. 388). Que possamos ser todos nós sinais de esperança e vínculo de caridade a todos os homens, que receberam a fé de Jesus e nele crêem. É no Cristo que está a nossa força, Ele é a razão de nossa esperança!

Welinton Silva é seminarista redentorista, licenciado em filosofia pela Universidade Católica de Goiás, Goiânia.
welintonredentorista@hotmail.com

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Impressões sobre Mossâmedes


Na última terça-feira (25/11) tive a oportunidade de estar na cidade de Mossâmedes, aqui no interior de Goiás. Tratava-se de uma animação missionária que se iniciava com a chegada da imagem peregrina do Divino Pai Eterno. Um clima de alegria e festa pairava no ar da pacata cidade. Mossâmedes estava recebendo mais um filho seu para com aquele povo se alegrar.
O Diác. André Ricardo, missionário redentorista volta a sua cidade natal para ser ordenado sacerdote. Isso, pela oração da Igreja e imposição das mãos de Dom Eugênio Lambert Rixen, Bispo da Diocese de Goiás – GO. A cidade de Mossâmedes tem pouco mais de cinco mil habitantes. Sua origem remonta os tempos do extrativismo do ouro em cidades ouríferas do interior de Goiás.
Tenho comigo um costume que trago desde criança. Quando chego a uma cidade que ainda não conheço, procuro logo saber da localização da Igreja Matriz. Lá posso tirar algumas tímidas e simples conclusões. No caso de Mossâmedes, tive a surpresa de ver que a fé de seu povo segue uma linhagem de gerações a fio. As grossas paredes da Matriz de São José evocam uma áurea de fé e devoção. No frontispício do edifício religioso traz a possível datação de sua construção: 1774. Em seu interior, no presbitério, ainda se conserva o retábulo com o antigo altar que lembra o tempo em que as missas eram rezadas em latim.
Do cimo daquele retábulo, no orango da Igreja, se vê a imagem de São José de Botas que, do alto, vela pela comunidade mossamedina que lhe confiou o patrocínio de sua cidade.
Mais algumas coisas me chamaram a atenção e eu gostaria de partilhá-las com o leitor. Nota-se que o povo é engajado, se preparando em oração (naquilo que a filologia da palavra exige: orar e ação) para receber a visita do Pai Eterno e realizar com orgulho a ordenação sacerdotal do Diác. André Ricardo. Na Santa Missa presidida pelo redentorista, Pe. Jesus Flores, para a recepção dos missionários redentoristas e da Imagem levada de Trindade, estava presente além da comunidade mossamedina, o Pe. Marques (pároco de Mossâmedes) e o Pe. Francisco Cavazzuti. A esse último religioso quero dedicar as próximas linhas deste artigo.
Pe. Francisco Cavazzuti é um místico mártir dos tempos atuais. Afirmo isso após te-lo conhecido pessoalmente e ter lido o seu livro de poemas intitulado “Salmos da Obscuridão”. Há pouco tempo Ele voltou para a sua terra natal, a Itália, e sua presença entre nós durante esses dias se deve à ordenação sacerdotal do Diác. André Ricardo.
Pe. Chico é mais uma vitima da pistolagem que buscava silenciar a voz daqueles que defendem a luta justa do povo pela terra. No dia 27 de agosto de 1987 sofreu um atentado contra a vida que o deixou cego em um povoado daquela mesma paróquia de Mossâmedes. Ele perdeu a visão biológica para ver com os “olhos da alma”, com os olhos dos outros. Mas, ao final da celebração eucarística, a qual estive presente, notei uma movimentação ali perto de mim. Grupos de pessoas se revezavam diante do Pe. Francisco. Todos querem a sua benção e saudação fraterna. Ele transmite uma luz efusiva com sua presença que é impossível não notar.
É digno de oração um de seus poemas mais famosos. Reza assim: “Senhor, eu sou cego. Dai-me o Espírito da Luz. Dai-me a luz do Espírito. Senhor, quanto o Mundo está cheio de tristeza! Dai-nos a alegria da ressurreição. Dai-nos a alegria da vida nova. Senhor, o teu amor é Esperança. O teu amor é o Caminho, para buscar e encontrar o Amor, também no sofrimento. Senhor, ainda é tão longo assim o caminho para a gente andar? E depois, terá uma Luz, Senhor? Terá Luz, sim!”.
Minha gratidão ao povo de Mossâmedes pela acolhida. Minha reverência ao neo-sacerdote Pe. André Ricardo que me possibilitou viver esses momentos. E, por fim, minha amizade e gratidão ao Pe. Francisco Cavazzuti, pelos preciosos momentos que estive ao seu lado e pude notar seu testemunho e doação, inspirados no próprio Jesus Cristo.

Welinton Silva é seminarista redentorista, licenciado em filosofia pela Universidade Católica de Goiás, Goiânia.
welintonredentorista@hotmail.com

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Na defesa do Pensamento Crítico


A Unesco Instituiu o dia 21 de Novembro como o dia Internacional da Filosofia. Contudo a formulação de um dia para comemoração desse advento pensante para a humanidade que é a filosofia visa muito mais do que situa-la em nosso calendário civil. Quer-se com isso atrair as atenções da sociedade em geral para o essa ciência tão abrangente e de tamanha importância para os seres humanos. Pensar é próprio do humano. E todo aquele que busca transpor o mundo da experiência visando explicar e entender essa experiência tem aptidão a filosofo. A filosofia é a ciência das causas primeiras sobre a qual nos debruçamos na busca por respostas aos problemas da vida.
A Lei nº 11.684, de 2 de junho de 2008, altera o art. 36 da Lei nº 9.394/96, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir a Filosofia e a Sociologia como disciplinas obrigatórias nos currículos do ensino médio (DOU de 3/6/08, MEC, pág. 1).
Aproveito o espaço para refrescar a memória do povo goiano que com certeza não se lembram da infeliz expressão usada pelo deputado Sandro Mabel em 2006. Tentando-se lançar como a terceira via da eterna polarização entre PMDB – PSDB, o referido político em uma entrevista a um jornal da capital disse que se fosse eleito governador “não concederia a distribuição de bolsas para alunos que desejariam cursar filosofia”. Para ele, o auxílio seria mais bem empregado se destinado a cursos mais “ativos” ou de maior ação na sociedade. Na época, a afirmação alimentou debate caloroso.
Quanto arrependimento tal frase não causou ao seu dono. O líder político que aqui se configura, governa para um mundo que produz técnica, reflexos de uma visão industrial de produção em massa. O pensamento e a consciência de quem produzem ou de quem consume não importam. O que conta na realidade é a dinâmica de mercado. Uma situação que talvez ilustrasse bem o tipo de povo para tal líder seria o filme Tempos Modernos (1936) do cineasta britânico Charles Chaplin.
Charles Chaplin quis transmitir uma mensagem social. Máquina tomando o lugar dos homens, as facilidades que levam a criminalidade, a escravidão. A conclusão que se vê: o ser humano é objeto do mercado. Porém as coisas não podem correr para isso. Quando não desenvolvemos uma crítica sobre os diversos temas que nos cercam, acabamos por ter de aceitar idéias que são impostas de fora. Sem filosofia, sem a atitude do pensamento critico a tirania estaria a nossa porta, senão ao nosso lado ou pesando suas resoluções sobre nós.
Procurado pelo mesmo jornal onde concedeu a entrevista em 2006 para comentar a decisão do Senado de incluir filosofia e sociologia no currículo do ensino médio, Sandro Mabel se esquivou do assunto e evitou retornar à polêmica. Disse somente que é o maior fã dessas disciplinas. Interessante.
Mas o problema não é só dos lideres. Nota-se no Brasil uma atitude de acomodação da população de um modo geral. Estamos nos acostumando com a instituição da democracia e seus erros. É bom lembrar: a Ditadura não veio do espaço (uma das primeiras medidas da Ditadura foi retirar a filosofia do ensino médio) e seus reflexos como a violência, corrupção e a desigualdade social, etc., ainda estão presentes. A sociedade estudantil e o povo em geral devem buscar alternativas e caminhos de transformação para a mudança da realidade social que entre nós se instaura.
A Filosofia é, inegavelmente, a disciplina mais necessária e mais viva entre quantas se estudam na escola e se afirmam na cultura e na sociedade. Que tenhamos mais apaixonados pela sabedoria no presente para vermos a fecundidade dessas sementes no futuro.

Welinton Silva é seminarista redentorista, licenciado em filosofia pela Universidade Católica de Goiás, Goiânia.
welintonredentorista@hotmail.com

Artigo publicado na edição nº 7686 de 21 de novembro de 2009 no Jornal Diário da Manhã.

Mais um Sínodo para a Igreja


Um acontecimento importante movimentou a Igreja Católica Romana no período de 5 a 26 de outubro de 2008. Poucos sabem que durante estes dias aconteceu na cidade do Vaticano a XII Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que abordou a interessante temática sobre “A Palavra de Deus na vida e missão da Igreja”.
A preparação deste Sínodo suscitou numerosas iniciativas para o anúncio da Palavra de Deus, ao ponto de vários bispos escolherem como programa pastoral temas relacionados com o Sínodo.
As intervenções feitas pelos Padres sinodais, foram antecedidas pela intervenção do Papa Bento XVI que falou acerca do trabalho exegético. A exegese segundo Bento XVI não deve ser só histórica, mas teológica para o futuro da fé. No entanto, um fato histórico se destaca nesse evento: pela primeira vez na história um líder da Igreja no Oriente participou de um Sínodo Católico. A intervenção do Patriarca Ecumênico Bartolomeu I aconteceu na Capela Sistina. Bartolomeu I discorreu sobre “A Escritura na tradição ortodoxa”, extrapolando os limites de uma cordialidade teológica, mas, apresenta uma verdadeira fraternidade entre as “igrejas irmãs” por parte de seus pastores maiores.
Para Bartolomeu I a Palavra de Deus tem importância fundamental não apenas para a Igreja Católica Romana, mas também para todos aqueles chamados a testemunhar Cristo nos nossos tempos. Ressalta ainda que a Igreja tem necessidade de redescobrir a Palavra de Deus em cada geração e fazê-la emergir com renovado vigor e força persuasiva, também no nosso mundo contemporâneo, que, no profundo de seu coração, está sedento da mensagem de paz, esperança e caridade de Deus.
Já o Papa Bento XVI lembrou, na missa de abertura do sínodo, que a primeira e fundamental tarefa da Igreja é nutrir-se da Palavra de Deus. De fato, afirma ele, se o anúncio do Evangelho constitui a sua razão de ser e sua missão, é indispensável que a Igreja conheça e viva aquilo que anuncia, para que sua pregação seja crível, apesar das limitações e das pobrezas dos homens que a compõem. Neste Ano Paulino, sentiremos ressoar com particular urgência a exclamação do Apóstolo dos gentios: 'Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho'.
Do Brasil, além do Arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Pedro Scherer (um dos Presidentes delegados do Sínodo), participaram também o Arcebispo de Mariana (MG) e Presidente da CNBB, Dom Geraldo Lyrio Rocha; o Arcebispo de Belo Horizonte (MG) e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina da Fé da CNBB, Dom Walmor Oliveira de Azevedo; o Arcebispo de Ribeirão Preto e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB, Dom Joviano de Lima Júnior e o Bispo de Goiás (GO) e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-catequética da CNBB, Dom Eugène Lambert Adrian Rixen.
As contribuições dos Padres sinodais foram de grande valia. Uma passagem do resumo da Mensagem do Sínodo dos Bispos ao Povo de Deus assim nos exorta: “Queridos irmãos e irmãs, custodiai a Bíblia em vossas casas, lede-a, aprofundai e compreendei plenamente suas páginas, transformai-a em oração e testemunho de vida, escutai-a com amor e fé na liturgia. Criai o silêncio para escutar com eficácia a Palavra do Senhor e conservai o silêncio depois da escuta, porque ela continuará habitando, vivendo e falando-vos. Fazei que ela ressoe no começo do vosso dia, para que Deus tenha sempre a primeira palavra e deixai-a ressoar em vós à noite, para que a última palavra seja de Deus.”.

Welinton Silva é seminarista redentorista, licenciado em filosofia pela Universidade Católica de Goiás, Goiânia.
welintonredentorista@hotmail.com

Artigo publicado na edição nº 7680 de 15 de novembro de 2009 no Jornal Diário da Manhã.